
A lua está cheia no céu. Aquela mesma da infância. Cheia de mistérios insondáveis que me atordoavam antes e me atordoam hoje. Eu, menina, da varanda de casa, olhando, olhando, sonhando. A lua era para se olhar para ela. Só para isso existia... grávida, plena, a flutuar no espaço sideral. A lua. Sim, a lua que me ultrapassa, me seduz, me comove, me fragiliza. A lua, aquela, que bóia no céu do país, está cheia. A lua dos amantes, dos namorados. De São Jorge. A lua madrinha. A dindinha lua da infância. Aquela mesma. Igualzinha. Só que mais amarela, de um amarelo opaco, baço. A lua pálida, fosca. Sem o brilho das noites antigas do povoado. Poluída. Explorada. Desmitificada. Ainda assim, lá está ela, do alto, governando as marés, as tempestades, iluminando a vida noturna, aguçando nossos desejos mais loucos. Eterna. Terna. Bela, como os meus sonhos de criança. Poluída, como meus sonhos de adulta. Como os meus antigos sonhos tornados impossíveis. [Naquela noite antiga você disse assim: um dia não estaremos mais aqui... mas ela vai estar sempre lá, impávida, no firmamento. Então olharemos para ela e recordaremos de nós.] Tudo é luar. Tudo é etéreo. Sério!

